#20 Montanheirismos
Quem caminha nas alturas?
Não paro de pensar na foto dos 274 alpinistas enfileirados, aguardando sua vez de ascender ao cume do Everest. Dezenas de embrulhinhos de tecidos coloridos engarrafados na “zona da morte” dos Himalaias. Não se vê nenhum rosto na imagem que registra um novo recorde, empilhado sobre outros tantos recordes conquistados a cada temporada: número de montanhistas, volumes de lixos na montanha, custos envolvidos na subida, quantidade de mortos pelo caminho. São muitos os dilemas que temperam cada temporada acima dos 8 mil metros, numa avalanche de fascínio e incompreensão que mobiliza toda ordem de curiosidade. Reportagens aos montes, livros ruins e bons escritos em todas as épocas, pesquisas acadêmicas que tentam desembrulhar essa categoria de gente - o montanhista.
Experimente se imaginar nesta fila, entre as últimas pessoas: calculando o oxigênio que resta, a respiração curta suspensa entre o maior feito de uma vida e a possibilidade do erro fatal. Por onde vai sua cabeça?
Em 1984, um grupo peculiar de montanhistas, cientistas e fisiologistas se propôs a entender melhor os efeitos sentidos num corpo que sobrevive a estas condições agudas. Carregaram um eletrocardiógrafo e uma bicicleta ergométrica até os incríveis 6.300 metros de altitude e ergueram seu laboratório num acampamento a caminho do Everest. Passaram semanas monitorando metabolismo, pressão sanguínea, ventilação e alterações cognitivas dos participantes que lutavam contra a hipóxia, condição grave causada pela baixa disponibilidade de oxigênio.
Cada novo aferimento desenhava uma fotografia espantosa. Acima dos 6.500 metros, a pressão de oxigênio no sangue caía para menos de um terço do normal, deixando os alpinistas sem cilindro auxiliar em condições de desmaio, mesmo em repouso. Para evitar a hipóxia, o organismo hiperventilava involuntariamente. Todos os participantes apresentaram vertiginosas quedas nas taxas de glicemia, sugerindo que o corpo queimava gordura e músculos como combustível, enquanto o raciocínio e a memória davam sinais de perda progressiva. Ainda assim, lá estavam eles, subindo, sem que o experimento identificasse alguma característica fisiológica capaz de explicar como isso era possível. John West, que descreve a expedição, se limita a identificá-los por “humanos excepcionais”.
Dois anos depois, outro grupo de cientistas, orientados pela mesmas indagações, monitorou seis alpinistas de elite e concluiu que eles “não possuiam adaptações fisiológicas à altitude que justificasse seu desempenho excepcional”, imortalizando o que considero a mais dramática frase já escrita num artigo acadêmico de fisiologia.
“As principais características de um alpinista de elite bem-sucedido em grandes altitudes são, além de um equilíbrio funcional ideal e uma habilidade incomum, forte motivação e determinação excepcional. Reinhold Messner, o primeiro alpinista a ultrapassar a barreira dos 8.500 m sem oxigênio suplementar, personificava esses alpinistas. Ele apresentava características fisiológicas bastante normais, mas a necessidade obsessiva de ser o primeiro e o melhor, por ‘meios justos’, como ele mesmo afirmava, ou seja, sem o auxílio de oxigênio em nenhuma fase da ascensão.”
Muitas tentativas de explicar o montanhista acabam esbarrando no campo misterioso da subjetividade. Há milênios montanhas têm figurado como metáforas para ideias de superação, sacrifício, transmutação e autoconhecimento, na voz de filósofos, mitologias e escrituras religiosas. Todo esse acúmulo cultural sedimenta o olhar que projetamos sobre a prática, compondo um imaginário que ultrapassa o embasbacamento pelos feitos físicos.
Eu faço parte do vasto grupo de montanhistas sem poder aquisitivo para as maiores altitudes rs, e em momentos de limiar da minha resistência, me peguei questionando que maluquices estariam atrás desse desejo. Entendi que travessias em montanha ensinam a atravessar a vida de uma forma simples e objetiva: mantenha o corpo vivo, alimentado, aquecido, e encontre o ritmo que torne possível continuar até o fim. Existe um estado mental que só nasce nessa circunstância, ritmada e orgânica, onde reside um prazer tão natural quanto as paisagens por onde se caminha…
Entre os alpinistas e os que curtem desafios extremos, camadas mais complexas precisam ser consideradas. Colocando todo o romantismo de lado, montanhismo também pode ser lido como uma empreitada voluntária dolorosa e desagradável para superar obstáculos absolutamente desnecessários. Não é um acaso que haja tanto interesse em compreender a psicologia dos montanhistas de alto rendimento.
Em 2022, Patrícia Jackman e seus colegas toparam analisar o que a literatura científica havia descoberto sobre esse assunto. A empreitada reuniu 69 estudos publicados entre 1954 e 2020 e deu origem à revisão “A Psicologia do Montanhista”. Apesar das dificuldades de conectar dados obtidos de formas tão distintas, alguns padrões se impuseram. Os alpinistas tendem a apresentar níveis mais elevados de busca por sensações em comparação a não praticantes ou atletas de esportes de baixo risco. E, contrariando interpretações simplistas, os mais experientes não são atraídos propositalmente pelo risco inerente à prática, e sim pela possibilidade de gerenciá-lo. O risco é aceito como parte do ambiente, mas a motivação profunda reside na tomada de decisões criteriosas e na agência sobre situações perigosas, servindo ao desejo de testar as próprios habilidades.
As ameaças são abundantes: avalanches repentinas, blocos de gelo e rochas maiores que carros, fendas profundas e escondidas, o mal de altitude e seus efeitos sobre o cérebro e os pulmões, hipotermia, tempestades surpresa. Uma lista que não se esgota. E parece haver uma mentalidade de jogo em articular todas essas probabilidades de forma a tornar possível a passagem em segurança, de um ponto a outro, cada vez mais alto e mais raro. Enxadristas com cordas e casacos acolchoados.
Um estudo com 17 escaladores do Cazaquistão tentou escavar mais fundo e identificou um sentido geral de vocação. Todos consideravam o montanhismo entre os seus principais propósitos de vida e se referiam ao esporte com expressões como “uma forma de viver uma vida com significado”, “uma doença incurável”, “um ímã que te atrai sempre que você pensa ou sonha com isso”, “como fumar ou beber, que te impulsiona a escalar repetidamente”,”uma atração por algo mais distante, eterno e desconhecido, que você deseja experimentar enquanto vive”.
Durante muitas décadas, o montanhista embrulhado em tecidos coloridos tinha, no imaginário, um rosto comum, construído por histórias diferentes de um personagem parecido. Nos últimos anos isso foi mudando, com conquistas muito relevantes de novas caras. Em 2021, Aretha Duarte tornou-se a primeira mulher negra latino-americana a atingir o topo do Everest, tendo custeado grande parte da empreitada com seus ganhos como catadora de materiais recicláveis em São Paulo. Essas histórias importantes atualizam nosso imaginário das montanhas. Ainda assim, montanhistas têm advertido que a aparente popularização dos picos não apresenta sinais de democratização.
Para muitos, o que avança é a mercantilização. Com pacotes de viagem cada vez mais estruturados e custos estratosféricos, os cumes maiores de 8.000 metros tornaram-se itens de luxo. O Everest teria migrado da categoria “conquista suprema” para a de “pico troféu”, atraindo escaladores sem a experiência que a empreitada exige. A discussão cresce a cada temporada. E a fila, como se sabe, também.
Eu continuo por aqui, sonhando com a possibilidade de caminhar no lombo de calcário desse chão que um dia foi mar, e hoje toca os céus com a força esmagadora de um continente contra o outro. Não se engane, cada montanha é uma à sua maneira. Assim o são, também, seus caminhantes.
Beijinhos <3
Nicole Manes
Curadoria
Documentário ˜Rainha do Eeverest˜
O documentário acompanha a alpinista Lhakpa Sherpa na sua 10.ª expedição ao cume do Evereste, primeira mulher nepalesa a consquistar o pico.
Referências
Yawar, A., et al. (2024). When the mountains call: Exploring mountaineering motivations through the lens of the calling theory. MethodsX. https://doi.org/10.1016/j.mex.2024.102545
(Artigo disponível em ScienceDirect)International Review of Sport and Exercise Psychology. (2020). The psychology of mountaineering: a systematic review.
https://doi.org/10.1080/1750984X.2020.1824242
(Artigo disponível em Taylor & Francis Online)Saumarez, R. C. (1986). An analysis of possible movements of human upper rib cage. Journal of Applied Physiology, 60(2), 678–689. https://doi.org/10.1152/jappl.1986.60.2.678
West, J. B. (1998). Life in the death zone. Natural History, 107(2), 36–41. https://www.jstor.org/stable/1692001
(Disponível em JSTOR)




